terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

whitman


A Gramophone de março traz uma matéria interessante sobre o poeta norte-americano Walt Whitman e sua relação com a música. Whitman é uma figura-chave na cultura dos EUA. Imaginava uma América diferente ao mesmo tempo em que incorporava os elementos que sempre moveram a cultura de seu país – dualidade que Charles Ives definiu com precisão ao descrevê-lo como “um yankee individualista, um empresário, um investidor do espírito”. Sua poesia, “Folhas de Relva” em especial, respira música a todo instante – ele cresceu ouvindo óperas italianas de Donizetti, Rossini e Bellini e inclusive atuou como crítico musical. Nos anos 70, seu homossexualismo transformou sua obra em bandeira. Mas o fato é que, para além de agendas específicas, diversos compositores, desde o final do século 19, criaram canções a partir de seus poemas. Quando esteve aqui no ano passado, falei de Whitman com o barítono Thomas Hampson. “Seu verso livre, a maneira como usava a língua, tudo seria diferente sem a música. Como uma partitura, seus poemas têm cadência, ritmo, uma estrutura bem clara que, no entanto, se altera, muda, nunca é a mesma, sendo definida pelo que se está dizendo, pelos sentimentos que ele queria expressar”, disse. Em outras palavras, há a busca por uma forma que captura a expressão ou uma expressão que dita a maneira como a forma se estabelece – o que, para Hampson, serve de símbolo da cultura americana como um todo. Hampson, aliás, gravou um disco, primoroso, com canções de autores americanos inspirados por poemas de Whitman – Ned Rorem, Charles Ives, Tilson Thomas, Aaron Copland, etc. A que mais me agrada é “To What You Said”, de Leonard Bernstein. A introdução ao violoncelo é a trilha perfeita para a definição –‘tis the young man’s heart’s complaint – que Whitman deu ao instrumento em “Song of Myself”. Poucas vezes texto e música se uniram tão perfeitamente – e não pode haver tributo maior à poesia de Whitman. O CD se chama “To the Soul” (EMI).

2 comentários:

pedrita disse...

eu dei uma olhada nessa revista hoje, mas não cheguei a ler nenhuma matéria. beijos, pedrita

Anônimo disse...

Dentre as muitas obras inspiradas pelo verso livre de Whitman, pelos seus ritmos e cadências épicas, duas pelo menos são excepcionais: a "Sea Symphony", de Vaughan Williams, e o Réquiem "When the Lilacs in the Dooryard Bloom'd", de Hindemith.
Lauro.