segunda-feira, 24 de setembro de 2007

céline

Com as mudanças nas últimas duas semanas no Teatro Municipal do Rio, não sei se está mantida a “Carmen” em homenagem a Céline Imbert e seus 20 anos de carreira. Encontrei com Céline há cerca de um mês no caixa do supermercado e ela estava animadíssima com a possibilidade de voltar a interpretar a personagem. Se for cancelada, vai ser uma pena. Não seria justo ela passar a data sem a homenagem devida. Mas meu espírito se acalmou um pouco com a produção de “A Voz Humana”, no Teatro São Pedro, no último fim de semana (por que uma temporada tão curta, aliás?). Caetano Vilela fez uma montagem no tamanho de Céline. A idéia de colocá-la como uma cantora de cabaré, cantando Piaf numa espécie de prólogo à ópera de Poulenc, enriqueceu a personagem e deu a ela uma leitura interessante. E não consigo imaginar maior homenagem a uma atriz/cantora do que um papel e uma montagem que lhe permitam explorar todas as suas possibilidades expressivas. A propósito de Céline, lembro aqui de uma história, uma sensação, na verdade, que me marcou muito. Há alguns anos, em Manaus, estive na abertura do Festival Amazonas, com um concerto ao ar livre. Orquestra e cantores ficam lá no alto, na sacada do teatro, e o público se espalha pela praça, alguns sentados, outros, a maioria, de pé, acompanhando tudo por telões. É claro que, em um ambiente de multidão como esse, as atenções se dispersam. As crianças correm, as comadres batem papo, tem até um ou outro que ouve o radinho próximo ao carrinho de pipoca. Em determinado momento, me levantei das cadeiras e fui dar uma volta pela praça. Depois de alguns minutos, Céline começou a cantar a ária da Odaléa, no “Condor”, se não me engano. Estava caminhando pela praça e a sensação que eu tive era que, de uma hora para outra, todo mundo fez silêncio e parou para ouvi-la. Talvez tenha idealizado a situação; talvez tenha sido mesmo uma sensação muito pessoal minha. Mas, no fundo, não sei se faz diferença. Seja no clamor da multidão, seja nos espaços mais íntimos de uma só pessoa, é em momentos assim que se identifica uma artista de raro talento. Brava, Céline!

2 comentários:

pedrita disse...

seria muito bom mesmo se a montagem acontecesse. beijos, pedrita

Anônimo disse...

João Luiz Sampaio
Estou muito feliz com o que você escreveu a respeito do meu trabalho. Muito obrigada por sua sensibilidade, por sua perspicácia e por ter ido me prestigiar com sua presença em "La Voix Humaine". Adorei cantar esta ópera, novamente, com a regência de Abel Rocha e, desta vez, sob a direção cênica de Caetano Vilela. Me senti mais amadurecida, não somente para cantá-la como, também, para interpretar a dor lancinante daquela mulher tão desestruturada em usa alma... Me permiti arroubos de loucura e busquei detalhes de dor... Tanto tempo para gerar um personagem e assim, repentinamente, tudo já faz parte do passado... Já acabou... Ontem, estava prostrada por me ter visto, de uma hora prá outra, sem a personagem que fiz viver... Mas, o maior prêmio que veio coroar todo este processo da arte, veio hoje quando li o que você escreveu sobre o que viu e sentiu... Reavivi minha convicção de que valeu à pena todo o esforço, toda a dedicação e de que sonhar, enfim, dá certo!
Um abraço prá você João Luiz e minha gratidão por seus dizeres...
Céline Imbert