domingo, 14 de janeiro de 2007

a sieglinde de birgit nilsson

Não sou homem de uma só Sieglinde. No começo, achei que era. A minha paixão? Regine Crespin, de delicadeza insuperável, na gravação que Solti fez da "Valquíria" nos anos 60 para a Decca. Mas o tempo me apresentou Gundula Janowitz, Leonie Rysanek, Gre Brojwenstein, Jessye Norman, Deborah Voigt, Alessandra Marc, Violeta Urmana, Waltraud Meier, Julia Varady, etc, etc, etc. Recentemente, somei à lista Lotte Lehmann, em uma gravação do primeiro ato feita com o tenor Lauritz Melchior e o maestro Bruno Walter. E aí sou obrigado a reconhecer: não consigo ser fiel; e o que era paixão virou tara. Estou sempre atrás de novas intérpretes. E qual não foi a minha surpresa ontem ao me deparar com uma "nova" Sieglinde, da qual não tinha notícia - a de Birgit Nilsson. A gravação faz parte de uma seleção de registros ao vivo de óperas de Wagner e Strauss realizadas nos anos 40, 50, 60 e 70 em teatros como a Ópera de Estocolmo, o Colón de Buenos Aires, a Casa do Festival de Bayreuth, a Ópera de Munique. A Sieglinde em questão vem de uma "Valquíria" de 1953 em Hamburgo, da qual é reproduzida toda a seqüência final do primeiro ato a partir de "Scläfst du, Gast?". Tudo bem, de cara vale dizer que a voz soa às vezes pesada para o papel - e o mesmo vale para os trechos de "Lohengrin" e "Tannhäuser" na mesma coleção (se bem que ouvir a Varnay como Ortrud sob regência de Eugen Jochum compensa...). Mas ela faz um "Du bist der lenz" extremamente convincente. E o parceiro no palco é o grande heldentenor sueco Set Svanholm. Na mesma coletânea, você encontra um dueto do "Siegfried" ao lado de Hans Hopf e a cena final do "Crepúsculo", ambos com regência de Rudolf Kempe. O disco dedicado a Strauss é outro banquete: trechos de uma "Ariadne" em sueco ao lado de Elisabeth Söderstrom e Hjördisch Schymberg (?); de uma "Salomé" feita no Teatro Colón com Fritz Uhl como Herodes; de uma "Elektra de Munique", regência de Sawallisch; e de uma "Mulher Sem Sombra" ao lado de Theo Adam e Astrid Varnay. O selo é o Gala e no site deles há referência a um CD com o primeiro ato completo da "Valquíria".

Um comentário:

Lauro Machado disse...

Também acho incomparável -- em termos de beleza do timbre e sensualidade da interpretação -- a Sieglinde de Régine Crespin. Acho-a a intérprete perfeita desse que é o papel feminino mais sedutor de Wagner. Mas também acho que as possibilidades de leitura abertas pela figura de Sieglinde são tão grandes, que todas essas outras grandes cantoras citadas deram a ela contribuições extremamente importantes. Mas Birgit Nilsson é um caso à parte, porque Sieglinde não é um papel que associemos naturalmente a seu nome -- embora ela o tenha feito algumas vezes, na fase em que Brünhilde era "chasse gardée" de Astrid Varnay. Essas gravações de trechos que você menciona, João, devem ser super-interessantes. Mas ao wagnerita devotado, recomendo uma gravação completa da "Valquíria", que circula em versão pirata (e pode ser obtida nesses sites dos quais se faz download, pela Internet). É um espetáculo ao vivo, de 15 de agosto de 1957, regido por Hans Knappertsbusch, um dos maiores intérpretes de Wagner naqueles anos. Nilsson ainda estava bem jovem, e a voz não chega a pesar, como você observa nesses highlights que ouvi. Ao lado dela, como Siegmund, está o notável Ramón Vinay, de voz escura, abaritonada -- o cantor que faz Otello na gravação de Toscanini. Essa "Valquíria" tem um elenco espetacular: Hans Hotter e Astrid Varnay, no auge da forma vocal, como Wotan e Brünhilde; Josef Greindl como um Hunding cavernoso, ameaçador; e Georgina von Milinkovic, no papel de Fricka, responsável por uma cena de confrontação com o pai dos deuses, no segundo ato, que é de tirar faísca da pedra. Essa -- e não é apenas pela curiosidade de ver a Nilsson em um papel raro em seu repertório, é uma gravação espetacular da "Valquíria", da fase de ouro de Bayreuth, e eu a recomendo com todo o entusiasmo.