sexta-feira, 16 de março de 2007

para que serve?

A idéia é interessante e assustadora ao mesmo tempo. Uma empresa especializada em tecnologia resolveu recriar gravações clássicas. Não, nada de limpar chiados, remasterizar, corrigir erros, etc, etc, etc. Com ajuda de um computador, o objetivo era pegar gravações e decodificar o modo como foram feitas – com que força a tecla do piano foi tocada, quão para baixo o pedal foi pisado, quando cada dedo se moveu e assim por diante. Isso feito, um outro computador foi acoplado a um piano. E passa a ele todas aquelas informações. O teste foi feito esta semana, nos EUA, com a gravação de 1995 das Variações Goldberg, feita por Glenn Gould. Em outras palavras, ali, na frente de todo mundo, a gravação foi reinterpretada ao vivo. E gravada novamente – o CD sai em maio pela BMG Masterworks. Se entendi direito, será o lançamento de uma gravação contemporânea de Glenn Gould feita sem que ele tenha se sentado ao piano. Aí pergunto: para que precisamos de uma gravação desse tipo que, aliás, é igualzinha àquela que nós já temos em casa? É apenas uma pergunta em um tema que me parece ser muito mais amplo, envolvendo questões muito mais sérias. Quem quiser saber mais sobre o projeto, pode ler sobre ele no New York Times e no Washington Post.

2 comentários:

Lauro Machado disse...

Isso me lembra algo que li, há tempos, sobre um desses nerds da Informática que tinha montado um programa para fazer a análise quantitativa do estilo de um compositor -- o levantamento percentual das estruturas formais que ele usava -- para, depois, recombiná-las e produzir uma obra com as características básicas daquele músico. Esse cara aplicou isso à linguagem de Mozart e obteve "típicas" sinfonias mozartianas? É como ter uma obra psicografada, sem o charme do terreiro de macumba. Repito a pergunta do João Luiz: para que é que a gente precisa disso? Vi uma vez, num hotel aqui de São Paulo, um Steinway que tocava sozinho. Era uma pianola de luxo na qual tinham acoplado uma engenhoca mecânica que acionava o teclado e os pedais, e reproduzia a execução de quem tinha gravado aquela música. É muito tênue a fronteira que nos separa do objeto artificial e desprovido de alma

Renato Mesquita disse...

eu tenho medo dessa inventividade toda; teoricamente é possível digitalizar uma imagem de algum artista e, depois, inserí-la em um novo filme, tal como é possível digitalizar todas as notas emitidas por um cantor e fazê-lo cantar aquilo que nunca cantou: já pensaram um Don Carlo com a Tebaldi de Elisabetta e a Callas de Eboli e , melhor, um filme da ópera com elas duas de protagonistas?

Tenho medo por razões óbvias e inconfessáveis: o desejo de tornar-me um criador!!!