terça-feira, 20 de fevereiro de 2007

marido de pianista nega plágio

William Barrington-Coupe, marido da pianista Joyce Hatto e dono do selo Concert Artist, rompeu enfim seu silêncio e negou que os discos de sua mulher sejam cópias do trabalho de outros pianistas. “Eu estava presente em todas as sessões de gravação, fui o engenheiro de som e assumo a responsabilidade por tudo o que meu selo lançou. Há 12 meses, ela não era muito conhecida. Se era tudo falso, por que eu colocaria o nome de minha mulher nos discos? Teria sido melhor colocar outro nome, algum nome russo talvez - teríamos vendido 10 vezes mais”, disse ele ao "Telegraph". Para ler a íntegra da entrevista, clique aqui.

5 comentários:

Lauro Machado disse...

O episódio Joyce Hatto sugere uma reflexão: certa pasteurização interpretiva, certa nivelação de estilos que se observa hoje, torna fácil não se poder distinguir, à simples audição, um pianista do outro. Em outros tempos, eu pergunto, seria fácil confundir Alfred Cortot com Josef Hofmann, ou Rachmáninov com Horowitz? A mesma coisa, tenho a impressão, acontece hoje com muitos regentes. Furtwängler e Bruno Walter, Charles Munch e Pierre Monteux, H. v. Karajan e Hans Knappertsbusch tinham maneiras inconfundíveis de reger. Hoje, com raras -- e honrosas -- exceções, as coisas parecem ir ficando mais impessoais e indeterminadas. As razões para isso?

Renato Mesquita disse...

Essa polêmica em torno dos discos da pianista inglesa já falecida suscita uma outra questão, bem mais delicada: a consistência e a integridade da crítica especializada - sobretudo a inglesa, que se gaba de analisar os discos com a partitura na mão – mas que é incapaz de descobrir uma fraude como esta.

Em geral, a crítica endeusa ou condena ao inferno interpretações tomando por princípio os nomes já conhecidos e as casas gravadoras. É comum interpretações simplesmente medianas serem alçadas ao patamar de excelência apenas porque foram editadas pelo selo X e gravadas por nomes intocáveis pela mídia. Por outro lado, interpretações excepcionais, de gente desconhecida ou pouco famosa, e editadas por selos menos famosos, permanecem no limbo somente porque não são ouvidas com o devido cuidado ou porque se tem o receio de, ao reconhecer o seu mérito, não seguir a ditadura da maioria.

É instrutivo que essas polêmicas demonstrem que os reis, mais vezes do que imaginamos, estão nus.

Lauro Machado disse...

Concordo inteiramente com o Renato e já vivemos, na prática, esse problema: a avaliação do trabalho de artistas muito bons, mas de pouco nome, lançados por selos menores, como o Naxos -- ou até de menor prestígio ainda, como o Gala Movieplay (é o caso do eslovaco Anton Nanut) -- e que nunca chegam a desfrutar do prestígio de outros, que gravam para os grandes selos.

Renato Mesquita disse...

tmabém concordo com a visão do Lauro: a pasteurização dos estilos de interpretação é uma praga que tem tirado da música aquilo que ela tem de melhor - a possibilidade de criar em cima das partituras e surpreender os ouvintes, de ousar produzir algo diferente, pessoal, traduzindo uma visão própria, uma formação e amadurecimento únicos, mesmo sob o risco da "imperfeição".

razões? a técnica colocada acima da interpretação, a maior possibilidade nos tempos de hoje de realizar um disco e colocá-lo no mercado, o desaparecimento dos grandes produtores ( Legge, Culshaw, Minshul, Grubb, etc.), os recursos quase infinitos das técnicas de gravação que permitem mascarar as falhas dos intérpretes, o desaparecimento dos grandes professores e das grandes escolas de formação e , sem nenhuma conotação racista ou politicamente incorreta, a entrada avassaladora dos orientais na música (chineses, japoneses, coreanos, etc.) que , na essência, são todos iguais, verdadeiras máquinas saídas de uma única linha de produção.

Lauro Machado disse...

A essas razões, Renato, acrescentemos o fato de que as pressões do star system e a rapidez das comunicações forçam os artistas a fazer as coisas cedo demais, num momento em que, do ponto de vista musical, eles ainda não estão maduros para elas. Elisabeth Schwarzkopf não fez a Marechala antes dos 30 anos. E você se lembra que Fischer-Dieskau esperou até os 50 anos para fazer Hans Sachs. Esse cuidado com a carreira, com a escolha de repertório, com a construção de visões complementares de uma mesma peça -- o #4 de Beethoven com Wilhelm Backhaus não era o mesmo se o regente era Hans Knappertsbusch ou Bruno Walter -- são coisas raras hoje em dia. Estaremos ficando velhos? Deus me livre de me pegar um dia suspirando e lamentando que ninguém mais canta, hoje, como a Tetrazzini.